domingo, 3 de maio de 2020

Numerologia e Cinismo

Nesta ocasião em que Estamos ON(!), cérebros já quentinhos e a carburar bem, e a dra. Graça e a dra. Temido executam as mais requintadas piruetas argumentativas a respeito do uso de máscaras, tendo em consideração o sinistro historial das suas declarações, mérito que qualquer funâmbulo profissional lhes reconheceria, será porventura oportuno acompanhar os números da tragédia:

Johns Hopkins
País     População    Infectados    Vítimas mortais
Coreia do Sul 50M 10.793 250
Formosa 23M 432 6
Grécia 11M 2.620 143
Israel 9M 16.193 230
Japão 126M 14.571 474
República Checa 10M 7.755 245
Portugal 10M 25.190 1.023

Somos o milagre que a comunidade internacional reverencia. Para os tolos e os demagogos.

No entanto, encontra-se com frequência artigos de uma direita reaccionária, como este, que escolhe esquecer os custos humanos da inacção na contenção.

Observe-se o exemplo da Suécia: 22 mil casos confirmados e mais de duas mil e seiscentas vítimas; taxa de letalidade de 12%.

Tome-se como heurística a opinião defendida naquele texto, 60% a 70% de contágio da população para obter a mítica imunidade de grupo.

Aplique-se isto a uma população de 10 milhões de habitantes. Melhor, vamos ser conservativos e considerar que 3 milhões de infectados "resolveria o problema" - para não se argumentar que se desconsidera o efeito enviesado das pessoas de idade.

Nestas circunstâncias, de acordo com os postulados do sr que escreveu aquele artigo, cerca de 360 mil vítimas mortais seria aceitável neste País para preservar o sistema económico e finaceiro do macro bloco europeu. Não me atrevo a efectuar semelhante exercício para a população global da União.

Esquece, aquele sr, que a única coisa que impede que a taxa de mortalidade iguale a taxa de letalidade é exactamente a implementação de medidas de contenção. Esquece ainda que a única coisa que distingue uma nota de 20€ de uma outra de 50€, além das figuras, é o número que lá está estampado, e que todo o capital que realmente tem significado se encontra desmaterializado e armazenado em registos de super computadores.

Não, não interessa preservar o Sistema, salvá-lo a todo o custo de uma morte iminente. É deixá-lo morrer e criar algo diferente, um pouco mais igualitário.
Por uma vez que seja.


P. S. Perdeu-se a oportunidade de implementar temporariamente o rendimento universal garantido, considerando a moratória de créditos e o "tele-trabalho", que será essencial no prazo de menos de uma década para garantir que a revolução tecnológica que já aí está à porta não nos deixará a quase todos na mais ingrata penúria. Mas isso é assunto para outra ocasião, e para outros políticos menos míopes e menos obcecados com as redes sociais do dia seguinte. 

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