quinta-feira, 9 de abril de 2020

Prodigioso

Nestes tempos infelizes e sorumbáticos que, para nós ocidentais de idade não muito avançada e bem alimentados, parecem constituir um limbo fora da história, ainda é possível encontrar eventos ou atitudes tão peculiares que nos furtam um sorriso à face. 

O nosso senhor Presidente da República, emérito académico, ele próprio condecorado com a comenda da Ordem de Santiago da Espada e com a grã-cruz da Ordem do Infante, em entrevista recente gravada no Palácio de Belém, mostrou surpresa por não ser agora imune ao novo vírus. 

Disse o senhor Presidente:

Depois da quarentena, fiz agora há poucos dias um teste dos novos que chegaram de imunidade, que já é de uma nova geração, os chamados testes sorológicos. 

Posso dizer-lhe que não estou imunizado porque não tive nenhum contacto com nenhum portador de covid-19, o que é uma ironia, porque se havia pessoa que contactava de próximo com os portugueses nas semanas anteriores era eu. Pois não tive nenhum contacto com ninguém com covid-19

Há de facto várias ironias, para além daquela que é nomeada pelo próprio.

A mais interessante é a que decorre da lógica da evasão.

Um evadido sente-se livre, no entanto não se torna imune a grilhetas logo que esbarre novamente com a realidade. Um desertor pode escapar às balas mas dificilmente lhes será imune se algum dia voltar ao campo de batalha.

O que é irónico nestas epónimas hipérboles é o facto de o sujeito imaginar que a fuga torna alguém imune a qualquer sinistro miasma.

O outro motivo de sorriso é a expressão que tantas vezes o senhor Presidente utiliza, e que tantas outras ouvirá pela voz do seu próprio temperamento:

Porque se havia pessoa que ... 

De facto.

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