domingo, 19 de abril de 2020

O Milagre que é Portugal


O senhor Presidente, com aquele dissimulado enlevo que se lhe conhece sempre que posto à frente de um microfone, voltou a deslumbrar-nos, e ao povo, com esta homilia de pendor heróico.

Vá-se lá perceber por que artes mágicas, este país, cujos responsáveis pela gestão da crise, e seus serviçais, agiram com toda a incompetência que tinham à mão, conseguiu apesar de tudo manter um número de vítimas estatisticamente baixo em relação aos exemplos que mais se lhe aproximam na inacção e leviandade - Espanha e Itália.

Felizmente, a verificar-se a súmula estatística oficial apresentada diariamente antes da fastidiosa enumeração de fiel de armazém e das respostas esquivas e politicamente correctas, embora ocasionalmente cedendo a uma mal contida exasperação, e não obstante a tragédia que tantas pessoas estão a viver, realmente teremos sido agraciados pela indulgência de um qualquer taumaturgo.

Recorrendo aos dados publicados aqui, porque por qualquer motivo de horário de expediente a OMS nunca tem os dados mais recentes da DGS, os dados com os quais deveriam comparar-nos (sempre em toada omissa por parte dos tele-evangelistas das 20h):

Johns Hopkins
País     População    Infectados    Vítimas mortais
Coreia do Sul 50M 10.661 234
Formosa 23M 420 6
Israel 9M 13.491 172
Japão 126M 10.797 236
República Checa 10M 6.701 186
Portugal 10M 20.206 714

Obviamente a OMS tem passado um mau bocado com a questão da Formosa...
p.s. A Grécia, com pouco mais de dois mil infectados e uma centena de vítimas! 

Com mais de dois milhares de profissionais de saúde infectados neste país de miséria, com falta de tudo, excepto de tempo para se preparar.

Com lares e autarquias ainda aguardando testes de rastreio, edis entregues a si próprios, EPI em falta por todo o lado.

Não sr Presidente, o milagre foi mesmo Milagre, efectivo ou estatístico de mão humana, e o sacrifício, como é habitual, recaiu sobre os mesmos do costume - os privados -, porque a graça nas estatísticas é inversamente proporcional ao quadrado da negligência, estupidez e inacção com que esta crise foi abordada.

E o estado providência novamente protegeu a classe clientelar de "funcionários públicos" próximos do aparelho.

E a estupidez continua manifesta, a assombrar-nos na nossa vigília:

1. Há excepções para o 25 de Abril, como se a maturidade de uma democracia se medisse pelo fragor das festividades da própria classe política responsável pela sistemática erosão da qualidade de vida neste país. Classe essa habituada à inimputabilidade dos seus actos, que se julga a si própria, e é de facto, acima da lei aplicável aos comuns mortais.

2. Segue-se a excepção do 1 de Maio para justificar mais tarde a permissividade no 13 de Maio, não vá o patriarcado exasperar-se também.

3. Ainda não se chegou a um consenso acerca do uso de máscaras. Ainda! De perigosas (ou factor de risco) a pode-se utilizar com cuidado a deve-se utilizar em hospitais. E em breve em cinemas, feiras e escolas, nas festas populares, nas sessões de beijinhos e abraços e nas barraquinhas de farturas. Será curioso observar o exemplo da AR no dia 25 - talvez máscaras de gás, P3, não vá dar-se o caso de os fascistas organizarem um assalto ao parlamento.

4. Mas há um novo argumento: estivemos sempre em linha com as recomendações da OMS. E assim se justifica tudo, as inversões nas máscaras, o milagre que os outros vêem no nosso país, as contradições acerca do efeito da pandemia na economia e nas finanças: ora terá impacto ora talvez não; austeridade não, ou talvez sim, ou talvez fique entregue à graça de Deus como tudo o resto. Afinal até tem funcionado.

Conseguiriam negar a existência de um sapo que lhes saltasse para a testa.

Marcelo está revitalizado, após bem-aventurado retiro espiritual, e não quer morrer na praia, como o povo diz. Será recatado nos mergulhos vespertinos.
Costa já recuperou a sua oratória balofa e tudo lhe parece simples. Só as transições são difíceis. Não queria estado de emergência e agora não quer sair dele.
Rio é um desaparecido político, mais preocupado com a intriga bizantina do PSD que em ser líder de oposição.
Ferro Rodrigues, esse septuagenário que não deveria sair de casa (de primeira habitação), sente-se recorrentemente enfastiado com os deputados e não dispensa o borrego e os trombones no dia 25.

Entramos na página da presidência e a hiperligação Covid-19 leva-nos a propaganda política de uma demagogia atávica de outras eras e uma insanidade desesperante: Estamos ON. Estamos ON o quê? Ligaram os cérebros, finalmente? É que não parece.

E temos o Camião da Esperança. Podia este país ser mais serôdio, mais atrasado, histérico e deprimente?

O que interessa é que a classe política já regressou ao seu ponto quiescente, ao seu funcionamento nominal, e já integrou esta grotesca tragédia no seu discurso. Já assimilou a crise.

Estamos perdidos.


Portugal, Portugal, 
de que é que estás à espera? 
Um pé dentro da galera 
e outro no fundo do mar.
(Palma, o último Cohen português)

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