segunda-feira, 9 de março de 2020

Sinal e Ruído


Portugal em Crise de Sanidade 


1. 

É quando aparecem aos pares que ficamos a saber que já está tudo perdido. 

sra directora-geral da DGS e sra ministra da Saúde
Graça e Temido

sr eng / PM / arguido e sr prof / M. Finanças / comendador,
ordem militar de nosso senhor Jesus Cristo,
(Minha Nossa Senhora!) 
entre outros negóciosno anúncio da Falência do Estado
(de sua própria responsabilidade)

Sócrates e Santos


2. 

Sousa Tavares, essa kalashnikov do comentário do entretém, enquanto paizinho e figura tutelar do apresentador de serviço de uma daquelas coisas que passam por telejornal, em simultâneo entrevistador e entrevistado, o homem que tanto dispara para o ar que por vezes caça um pato, tem, vai para uma semana, a pura estupidez de afirmar, naquele seu tom duro e definitivo:

nunca ninguém me irá ver de máscara! 
... excepto se for para proteger outras pessoas de mim próprio ... 

A citação é em sentido lato mas cumpre o propósito, que é o de tentar compreender como é que aquele senhor irá aperceber-se do contágio se a transmissão pode ocorrer durante período significativo de modo assintomático?! 

Interrogo-me se estes educadores do povo ligam o cérebro antes de disparar pela boca. 


3. 

Estamos tranquilos, Portugal está preparado, Estão a ser tomadas todas as medidas necessárias e suficientes, medidas proporcionais, O padrão de disseminação tem estado a correr razoavelmente bem, Temos a situação controlada, o que não significa que amanhã ou depois não ocorra um aumento de casos como observamos em Itália. 

As duas últimas pérolas são da sra directora da DGS, que preteriu a sua formação científica em favor da atitude serviçal de delegada política.

Como se o triunfo da inépcia não bastasse, esta sra teve a desfaçatez de afirmar, distante que está de uma realidade que insistentemente nos bate à porta:

não pode haver açambarcamento de géneros alimentares! as pessoas devem voltar-se para as suas hortas ou recorrer a amigos que tenham hortas... 

Tempos houve, num País que nunca foi este, em que, por muito menos, ministros e tecnocratas eram convidados a demitir-se após proferirem, na acutilância do seu próprio pedantismo e incompetência, semelhantes enormidades. Gente indigna e sem carácter que na derrota atribui ao povo a responsabilidade da solução de uma tragédia que, na boçalidade cínica de um sorriso, ainda há alguns dias desprezava.

Enquanto a China isolava cidades com número de habitantes superior à nossa população e a Itália enfrentava uma situação já alarmante, os nossos políticos, seus autistas delegados e comentadores clientelares, realçavam o ridículo que seria a quarentena, a ineficácia dos rastreios de cidadãos em trânsito a partir de zonas afectadas, e a imperativa necessidade de não ceder a pânico que cause alarme social. O alarme social manifesta-se quando já nem em banais superfícies comerciais de bricolage encontramos máscaras de trabalho, luvas e desinfectante para as mãos. 

Tiveram de ser as próprias adolescentes universitárias regressadas da China a ter o bom senso que faltou a todos aqueles cobardes e a tomarem a iniciativa de permanecer em isolamento. Se aquele extravagante paquiderme ditatorial que é a China consegue produzir adolescentes com este nível de consciência social talvez afinal nem tudo esteja perdido. 


4. 

o pior inimigo não é o vírus! o pior inimigo é o pânico injustificado! 

Não, sr primeiro-ministro. O pior inimigo da sociedade é a incompetência, a cobardia e o descaramento dos políticos. Talvez compreendesse isso se se sentasse por um minuto à sua secretária a trabalhar. 


5. 

Está tudo a correr tão bem que aqui na ruralidade de Felgueiras além de não haver máscaras já não há álcool nem desinfectantes. E começou a corrida às conservas, nesta terra onde tantas pessoas têm horta. 

Está tudo a correr tão bem que a DGS e o Ministério até já têm recomendações para "os ajuntamentos". Recomendações essas com uma minúcia de tal grau que grupos de 987 pessoas e de 1013 são de categoria diversa, e o risco associado à participação de cinco mil pessoas num evento é significativamente diferente daquele que resulta de ter apenas quatro mil.

A OMS continua a recusar o termo Pandemia, após ter aberto o precedente para agradar ao "accionista" chinês. A cobardia está por todo o lado.

Por cá passam notícias salientando a preocupação com os resultados financeiros de colossos como a Amazon, a Alphabet, a Apple, e a Microsoft, como se isso nos interessasse para alguma coisa. 


6. 

- estou sim?! é da saúde 24?! - espero que seja, Céus!, acabado que estou de regressar do norte de Itália e com tantas crianças para aturar. 
- claro que sim. deve ter sido este número que a senhora marcou.
- não sou uma senhora, caraças!... ah, poças!... má sorte a minha... bem me disse a minha segunda mulher... mas espere, não lhe levo a mal! tenho urgência em esclarecer uma dúvida que me sufoca a paz de espírito...
- as minhas desculpas. é que parece mesmo voz de senhora.
- que disparate, homem! é a quinquagésima sexta vez que estou a ligar e você vem com esta conversa?! Minha Nossa Senhora!
- estou a ver que não aceita o meu pedido de desculpas. diga lá então ao que vem.
- ó homem, regressei do norte de Itália, ali mesmo da zona de maior risco! escapei à quarentena deles por entre sebes e perigos insondáveis e quero saber se amanhã posso ir dar aulas porque ninguém me soube explicar na Portela.
- tem tosse?
- não.
- sente-se frio mas está quente?
- o quê? raios, está a brincar comigo?!
- tem temperatura?
- é claro que tenho temperatura! toda a gente tem temperatura! o que diabo está a tentar perguntar-me?!
- um momento, deixe-me ver aqui no software... ah, sim... está a deitar sangue pelos olhos?
- com mil milhões de raios e coriscos! é claro que não! como é que lhe poderia ter ligado se estivesse?!
- bom, se não tem sintomas então pode ir trabalhar à vontade. se for necessário daqui a quinze dias encerramos a faculdade e vão todos para o isolamento social na sala 13.


7. 

Neste momento estão a encerrar escolas, faculdades e ginásios, a aconselhar as pessoas a trabalhar em casa, a estabelecer um complexo conjunto de regras para os ajuntamentos, a sugerir o adiamento de consultas ou a sua realização à distância por meios de comunicação digital, enfim, a isolar todas as instituições onde ocorra a mínima suspeita de contágio.

A Itália acaba de entrar em quarentena na generalidade do território. De ontem para hoje o número de vítimas passou de pouco menos de quinhentas pessoas para bem mais de seiscentas.

Só agora se acorda de uma longa letargia após tamanha tragédia em terras longínquas. E ainda não passamos a barreira emocional do choque da primeira morte tão próximo de casa...

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