quinta-feira, 19 de março de 2020

Ecce homo



Um Homem Circunspecto. 



É verdade caro Sr. PM António Costa, S. Exa. Marcelo regressou do seu auto imposto exílio cheio de vontade de lavar as mãos, cumprindo o acto de profilaxia política mais recomendado dos últimos tempos e deixando-lhe no colo aquilo que ambos mais repudiam: Responsabilidade. 



Se o Exmo. Sr. PR pretende dirimir responsabilidades ou se se trata apenas de um confronto de egos com V. Exa., necessário aos olhos do País após tão invulgar ausência de duas semanas, será algo a esclarecer no domínio da astrologia, da escatologia ou da teleologia. 

No entanto, enquanto lhe outorgava tão deletério miasma, que V. Exa., como é usual, habilmente tratará de delegar em acólito, ministro ou secretário com experiência na gestão de comunicação na Época do Incêndio Florestal, o Sr. PR, supondo-nos todos crianças de cinco anos, conseguiu produzir um triste acervo de peculiares asserções:


"Diz o Povo: mais vale prevenir do que remediar.

Diz o Povo. Aquele Povo sábio que tantas coisas diz. Aquele Povo que tanto bate em pedra (tão) dura que nunca fura. 

Está sempre presente, este bordão linguístico, tanto no discurso dos comunistas, que o precedem de Os Trabalhadores, como no dos Reciclados do Tempo da Outra Senhora. 

O Povo é aquela acéfala quimeta à qual tudo tem de ser pacientemente explicado recorrendo a analogias simples ou a gloriosas hipérboles, e.g. A Guerra. 


"O que seria mais tarde se fosse necessário agir?... Começamos mais tarde mas devemos queimar etapas.

Infelizmente já é "mais tarde", cerca de um mês e meio mais tarde. Nada se "Preveniu". Resta "Remediar". 

Mas o sr. PR tem a seu favor o facto de ser um excelente cicerone e um péssimo gestor de crises, à semelhança de V. Exa. 
Enfim, a cada qual as suas próprias alergias. 

Remata com uma analogia desportiva, para que "O Povo" compreenda inequivocamente a sua tardia preocupação. Essa preocupação de quem ainda há um par de semanas, antes do merecido retiro espiritual, se manifestava peremptoriamente a favor de todas as (in)decisões do governo, imediatamente secundado pela corja clientelar de opinadores que habita a comunicação social contemporânea. 


​E repete, na sua fastidiosa oratória, errando sempre no primeiro tempo verbal: Sabia e sei ... Sabia e sei ... Sabia e sei ...

Sabe-se que não sabia e duvida-se que agora já saiba. 


"O caminho é longo, difícil e ingrato. 

Pena é que a caminhada apenas agora tenha começado. Pena é que a nossa tíbia comunicação social imediatamente tenha incorporado a sua retórica. Essa comunicação social desprezível que, na sua estranha recém adquirida superioridade moral, é capaz de criticar idêntico desaparecimento político do rei de Espanha no oblívio da atitude do nosso Sr. PR. 

A mesma que é tão pronta a relatar os disparates de Trump e tão esquecida a assinalar as responsabilidades de Xi. 




Toda esta pantomina seria objecto de gracejo não fora a situação tão trágica. 

Resta-nos rezar. 

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